Coronavírus em BH: Combate ao vírus não chega à população socialmente vulnerável

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Coronavírus em BH: Combate ao vírus não chega à população socialmente vulnerável

Moradores de favelas, ocupações, desalojados e pessoas em situação de rua reclamam de descaso do poder público

Higienização das mãos. Evitar contato. Evitar sair de casa. Evitar aglomeração. Estas são algumas das recomendações de prevenção ao Coronavírus, mas como segui-las sem uma estrutura favorável? Em Belo Horizonte, milhares de pessoas vivem em situação de vulnerabilidade social, seja na rua, em favelas, ocupações ou abrigos, e as dificuldades dessa população começam muito antes de qualquer epidemia.

Cerca de 200 pessoas desalojadas após as chuvas de janeiro estão morando em uma pousada na rua Espírito Santo, no Centro de Belo Horizonte. Entre diabéticos, hipertensos e idosos, os moradores se preocupam com a possibilidade de disseminação do Coronavirus no local. “Estou com seis pessoas em um quarto de dois por três (metros), aí veio uma moça da saúde e pediu pra gente se isolar, mas se isolar como se estamos todos aglomerados?”, questiona o auxiliar de serviços gerais Itamar da Silva Pereira Sobrinho, de 35 anos.

Itamar mora há três meses na pousada, no mesmo quarto, com a esposa e quatro filhos. A família morava no bairro 1º de Maio, Norte de BH, e ficou desabrigada após as chuvas de janeiro danificarem a estrutura de sua casa. Agora eles aguardam os procedimentos necessários para receber a ajuda de R$ 500 da PBH para pagar o aluguel de uma casa.

Na mesma situação estão Lilian Bernardes da Fonseca, de 40 anos, e a mãe dela, Mariza Faustino, de 63. A mais velha sofre de diabetes, hipertensão e outros problemas de saúde. “O tratamento é muito ruim aqui dentro, e quando precisamos ir ao posto, temos que pedir vale-transporte e é muita burocracia até eles darem”, lamentou Mariza. Lilian ainda se indiguina: “Todos eles, da Urbel, os vereadores, todos foram para casa, e a gente vai para qual casa? A gente continua misturado”.

A alocação de desabrigados em pousadas foi uma requisição da Câmara Municipal de BH, por meio da Comissão de Direitos Humanos. Segundo a vereadora Bella Gonçalves (PSOL), era uma medida provisória que deveria durar até a bolsa moradia, também conseguida pela comissão, começar a ser paga. “O problema foi que esse processo se tornou absolutamente demorado e moroso, de forma que as principais vias da cidade estavam reparadas e centenas de pessoas continuavam em risco”, disse.

A vereadora estima que 2 mil pessoas tenham ficado desalojadas e um terço delas foi encaminhada a pousadas, mas que não oferecem estrutura adequada. “Agora com a propagação do surto, as famílias que saíram do risco geológico foram submetidas a um risco social muito grande, ligado ao risco epidemiológico dos locais de abrigamento virarem foco. 

Falta de recursos ameaça cuidados

“Eles não têm nem o que comer, aí agora tem que comprar álcool em gel”, é o lamento de Luh de Paula, moradora e coordenadora da ocupação Vitória – Izidora, no limite entre BH e Santa Luzia. Luh está em quarentena desde a última terça-feira (17), quando descobriu que teve contato com uma espanhola possivelmente contaminada com o coronavírus.

Há dois dias ela aguarda a visita da equipe de saúde da PBH e afirma que ninguém na que teve contato com ela antes foi orientado sobre os riscos. “Estamos praticamente abandonados nessa situação, já enviamos um comunicado ao secretário de saúde de BH, reivindicamos uma nota de esclarecimento, estamos pedindo socorro”, relatou. “Não tem sabão para lavar roupa, muito menos para lavar a mão toda hora”. A ocupação tem 4500 famílias.

No Aglomerado da Serra, Centro-Sul de BH, a presidente da Associação de Moradores da Vila Santana do Cafezal, Cristiane Pereira, também se preocupa com a chegada do coronavírus na comunidade, cuja realidade é de famílias numerosas vivendo juntas em casas muito pequenas e com pouco recurso. “Estamos tentando encontrar parceiros para formar kits higiênicos e cestas básicas. Se esses vírus chega na favela, vai ser uma catástrofe”, contou.

O máximo de orientação que ela recebeu foi do gerente do centro de saúde da vila, que instruiu a pedir que a população não procure o posto à toa para não correr risco de encontrar pessoas com o vírus. “Mal acabou o problema da chuva, aí vem o problema do vírus”, lamenta a líder, se referindo aos desabrigados que as chuvas de janeiro deixaram na região.

Nas ruas

Pessoas em situação de rua também reclamam dos impactos da epidemia na rotina. Gilsa Nunes tem 36 anos e mora há três nas ruas. Antes acampada no Parque Municipal, ela foi para a escadaria da Igreja São José quando o parque foi fechado. “Está tudo mais difícil, vivemos de catar latinha e das doações das pessoas, mas elas não vêm mais doar porque estão todos com medo”.

O colega dela, Hallan Gervásio, 41, nunca viu uma situação como esta nos dez anos em que mora nas ruas. “Não fomos procurados por ninguém, ninguém quer saber de nós não, moça”, disse à reportagem quando questionado sobre a assistência da prefeitura. 

Um homem de 55 anos que não quis se identificar afirmou que somente na quarta-feira (18) as equipes dos Centros de Referência começaram a tomar precauções. “Para o lanche estamos entrando de dez em dez e às vezes tem distribuição de álcool em gel, mas no albergue continua tudo a mesma coisa e se uma pessoa pegar [o coronavírus] eles disseram que vão fechar”, contou. A PBH, em nota, disse que não há indicaão para suspensão dos serviços.

O sistema de abrigamento em massa oferecido em BH, para a vereadora Bella Gonçalves, é um grande gargalo para a doença e tem potencial para deixar doentes tanto os usuários quanto trabalhadores. “As pessoas em situação de rua circulam muito pela cidade, têm acesso restrito a higiene, a alimentação, além de muitos deles estarem nos grupos de risco, e é necessário traçar estratégias que garantam condições tanto para os trabalhadores quanto de higienização para os usuários, e é nisso que estamos [a Gabinetona] trabalhando no momento”, contou

Desigualdade afeta saúde pública

Segundo Waleska Caiaffa, professora de epidemiologia e saúde pública da UFMG, ainda não há um panorama definido de como a epidemia se comportará em um país com o contingente de pessoas em vulnerabilidade social como o Brasil, mas a análise antevê o cenário com base nos fatores de risco considerados para a transmissão, como o contato social.

“Quando pensamos em pessoas que vivem em áreas de vilas e favelas, em casas com um, dois cômodos onde dormem famílias completas, começamos a ver uma grande inequidade nos fatores que propiciam a transmissão do coronavírus”, exemplificou.

Na análise da pesquisadora, a epidemia vai pegar com muita força a todos, mas sobretudo as populações mais vulneráveis. “Por enquanto não estou vendo nenhuma recomendação além das mais gerais, mas não adianta recomendar sem fornecer os meios para que as pessoas sigam”, conclui.

Confira nota oficial divulgada pela PBH:

A Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informa que os 152 Centros de Saúde, as nove UPAs e o Cecovid (Centro Especializado em Covid-19) estão preparados para atender a população. Será emitida uma nota técnica, direcionada aos profissionais das unidades de saúde e que atuam junto aos moradores em situação de rua, com orientações sobre a abordagem e ações.

No que se refere à realização de exames, conforme orientação do Ministério da Saúde, estão sendo priorizados os casos mais graves. É importante esclarecer que todos os casos notificados como suspeitos seguem sendo monitorados pela equipe de saúde e são orientados sobre retorno à unidade de saúde, caso agravamento de sintomas.

Assistência Social

De acordo com a Portaria 36/2020, da Secretaria Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania, estão mantidos serviços considerados essenciais, como o funcionamento dos abrigos, albergues, Centro de Referência para a População em Situação de Rua e o Serviço Especializado de Abordagem Social, no caso da população em situação de rua.

No atendimento, estão sendo implantadas mudanças seguindo orientações da Secretaria Municipal de Saúde, como maior espaçamento entre os leitos no albergues e maior ventilação durante o período de permanência nos espaços, além da higienização imediata dos usuários ao chegarem nas unidades. Outra alteração são as refeições, que passam a ser entregues em marmitex, evitando aglomerações nos refeitórios dos albergues.

Os Centros de Referência para a População em Situação de Rua permanecem abertos para higienização e banho dos usuários, mas atividades coletivas estão suspensas. No caso do Serviço Especializado de Abordagem Social, as equipes que atuam nas nove regiões da cidade estão trabalhando na orientação dos usuários, atendimento das demandas e encaminhamento para os serviços de saúde, quando necessário. Para além dessas medidas, estão sendo discutidos protocolos específicos de atendimento para essa população.

Os Restaurantes Populares, que ofertam refeições a baixo custo – sendo garantida a gratuidade para a população em situação de rua – seguem em funcionamento, com exceção do Refeitório Popular da Câmara Municipal, que está fechado. A forma do atendimento, no entanto, será alterada, com a entrega de marmitex, evitando aglomerações nos equipamentos.

Sobre as pousadas, a Prefeitura de Belo Horizonte está providenciando todas as medidas para evitar que as famílias fiquem expostas aos riscos, reforçando a higienização no local e repassando orientações da Secretaria Municipal de Saúde para que sejam evitados o contágio e a transmissão do vírus. As equipes estão mobilizadas, desde a última segunda-feira, para encaminhar todas as famílias que estão nas pousadas para o Programa Bolsa Moradia. As famílias que ainda não indicaram a nova moradia poderão receber o Abono Pecuniário, que consiste no fornecimento de auxílio financeiro para fins de moradia.

Ações de prevenção nas pousadas

  • Instalação de dispensadores com álcool 70 em todos os andares e dispensadores com sabonete líquido nos banheiros.
  • Fornecimento de máscaras, às pessoas que necessitam, segundo orientação da Secretaria Municipal de Saúde;
  • Referenciamento de todas as pessoas no Centro de Saúde mais próximos às pousadas;
  • Reforço no repasse de orientações específicas feitas pelos agentes de saúde quanto à circulação, aglomeração, higiene, dentre outras.
  • Suspensão de visitas por tempo indeterminado;
  • Orientação aos hóspedes para que evitem sair da pousada;
  • Reforço de trabalhadores e hóspedes no cuidado no manuseio dos alimentos;
  • Uso de talheres individuais e descartáveis;
  • Alimentação em marmitex, evitando filas e o proliferação de vírus em ambientes de self service;
  • Alteração no horário de almoço, na forma de revezamento entre as famílias, evitando assim aglomeração no refeitório;
  • Reforço de orientações, com afixação de cartazes de informações da Saúde em áreas coletivas das pousadas;
  • Fornecimento de fraldas para crianças e pessoas idosas conforme a necessidade.
  • Acompanhamento das informações publicadas pelos órgãos competentes, com o objetivo de orientação e adequação às necessidades.

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